RIBEIRO ROCHA JULIO 
A MUDANÇA
A MUDANÇA

                     Pela madrugada de uma quarta-feira chegou o misto que fazia a linha Campestre à Natal. Estacionou no terreiro da casa grande. Meu padrinho chamou alguns moradores, a fim de ajudarem colocar os móveis em cima da carroceria do veículo e em seguida, chamou Osório e Zeca - seus  empregados de confiança - aos quais determinou:

“Osório e Compadre Zeca dêem ração bastante ao gado, às criações miúdas e aos demais animais. Amanhã, bem cedo, selem quatro cavalos para vocês, Júlio e Antônio. Compadre Zeca conhece todo o caminho até Pitombeira. Vocês não terão dificuldades. Levem bastante alimentação para vocês. Dêem ração ao rabenho na fazenda do meu velho amigo Apolinário, que você conhece, compadre Zeca. E fica às margens da estrada que vai para Pitombeira”.

Às 8 horas da manhã, o pessoal terminara de arrumar a troçada em cima do caminhão. Madrinha Guilhermina,  Sulina de compadre Zeca e suas duas filhas e seu filho Luiz embarcaram na cabine do veículo e partiram com destino à nova morada.

Iniciamos a caminhada. Zeca - como o fora determinado - seguia à frente como  guia. E, segundo ele, seriam dois ou três dias de viagem, sem alimentação para os animais. Nos cabaços levávamos água necessária para o nosso consumo. Os filhotes das criações miúdas  ficaram à espera da segunda carrada do misto para levá-los.

Deu meio-dia. Os animais estavam esbaforidos com o sol que torrava tudo.  Não existia nenhuma sombra para descansar por alguns minutos com os animais. Zeca, porém, que continuava seguindo à frente, reduziu um pouco as passadas do seu cavalo.

Sem desmontar, comemos alguns pedaços de carne com farinha e rapadura. Tomamos água quente dos cabaços. Apressamos os passos porque os animais não podiam passar mais de dois ou três dias sem comer e beber.

Anoiteceu e logo chegou a lua bem clara, que permitiu tangermos o rebanho até o entardecer da noite.

Chegamos a um lugar descampado e Zeca resolveu encurralar os animais no canto de umas cercas. Descemos dos cavalos e lhes retiramos as selas. Das  mochilas  tiramos  brotes,  carne  e  rapadura. E jantamos!... Zeca colocou milho nos bornais  dos nossos  cavalos,  enquanto o resto não tinha  nem o que ruminar.

Cansado, o gado lago deitou-se. Forramos o chão com umas esteiras de palhas de carnaúba. E deitamos. O rebanho estava quieto.  Osório, que se encontrava sentado sobre uma esteira, tinha um vício desgraçado. Ele pegou um pedaço de cigarro de fumo brejeiro - feito com palha de milho - que se encontrava colocado por trás da sua orelha esquerda. Retirou de sua mochila um artifício - como era conhecido um velho invento de fazer fogo; era uma ponta serrada de chifre de boi, cheia de algodão, tampa de cabaço furada ao centro, e com uma correia de couro cru fixada no furo. Ele destampou o tal artifício, à boca do qual colocou uma pedra chata do tamanho de uma caixa  de  fósforos - conhecida   como  fígado  de  galinha -,  e  sobre  a mesma pressionou uma lima velha de ferro com muita rapidez produzindo faíscas,  e  incendiou  o  algodão, com o qual acendeu  o cigarro.

Deu fortes baforadas. Deu fedorentas baforadas! Fumou-o todo. Encostou-se à sua sela e debruçando a cabeça, adormeceu.

Acordamos com Zeca nos chamando. A barra vinha quebrando. Os animais ficaram de pé. Selamos os cavalos e seguimos.

A paisagem começava a mudar de seca para verde. A terra ia mudando de caatinga para arisco. O vento não era tão rebelde como o era no sertão de terra  seca e descampada.

Retomamos a caminhada pegando ainda a aragem fresca do amanhecer. Deu meio-dia. O gado já não estava tão esbaforido como no dia anterior.

Findou o dia. Vem a noite bem fria com o vento menos bravio. Estávamos chegando à fazenda de Apolinário, que  era amigo de João Horácio, onde pernoitamos.

Era um homem alto e buchudo, de cor parda, que nos deu toda acolhida, inclusive ração e água para o rebanho que estava faminto. O rebanho se alimentou de capim verde, que não comia há tempo.

Com Apolinário não existia tristeza. Estava sempre rindo, cheio de vida. Mandou-nos tomar banho. Serviu-nos um farto jantar. E ao mesmo tempo determinou a dois empregados dar água e ração aos cavalos. Depois de uma longa conversa, armamos nossas redes no alpendre do casarão.

Às 4 horas da madrugada, Zeca levantou-se e nos chamou. Apolinário já estava acordado há muito tempo e ele mesmo preparou o café. E bem reforçado! Barrigas cheias, nos despedimos dele. Colocamos os animais na estrada. Zeca, que era mestre em aboiar, deu três aboios (cantos melancólicos para guiar o gado). Retomamos o caminho com destino à nova morada.

Meio-dia. O verde se tornara cada vez mais verde. Andamos sem dar descanso. Agora, os animais caminhavam à sombra dos grandes pés de árvores.

Chegou a tarde. E a noite.

Zeca, sempre à frente do rebanho, resolveu acampar. Agasalhamos o rebanho à beira de um rio, próximo a um poço no meio de monstruosos pés de oiticica, onde os animais beberam água e deitaram-se.  Estiramos as esteiras no chão de areia bem branca. Dominado pela fadiga, Antônio adormeceu rapidamente.

O silêncio daquela noite era quebrado pelas jias, que de dentro do poço de água escura, bradavam o seu cântico esquisito:

“Bum!... Bum!... Bum!..."

E o gado nem se mexia.

Fazia frio. Enrolei-me com um lençol. Zeca, que se deitara bem perto de Antônio, levantou-se apavorado com a catinga nojenta da fumaça infernal do cigarro de Osório.

“Qui diacho de fedor é esse!!!?" - reclamou.

Chegamos ao terceiro dia. E retomamos à caminhada no horário de sempre. Não tardou, chegamos a um povoado. Zeca nos disse que estávamos a poucos quilômetros de Pitombeira. Um cidadão bem vestido aproximou-se de Zeca, e indagou:

  • As ovelhas são para vender?
  • Não sinhô.
  • Vão para onde?
  • Vamos para Pitombeira – respondeu Osório.
  • Já estão chegando. É daqui a quatro quilômetros.
  • Muito obrigado e até logo – concluiu Osório.

Os animais andavam capengas. Prosseguimos na caminhada. Impaciente, disse Osório:

“Eu acho que chegamos. Zeca está se esquiando na sela!"

De uma estrada estreita, a menos de duzentos metros, estávamos chegando à casa grande e à sua frente, em pé, meu padrinho nos aguardava, impacientemente.

Tangemos o gado para um curral novo, que fora construído naqueles poucos dias e os animais miúdos para um chiqueiro, também novo, todos com muita ração.

Em terra e vida novas, era tudo diferente. Muito verde. O cheiro agradável da terra. O aroma gostoso dos cajueiros e mangueiras  que estavam cheios de flores e frutos. Que maravilha!

Tudo  era o presente que Deus estava dando ao velho João Horário, meu querido padrinho.