RIBEIRO ROCHA JULIO 
Cap 118 Traição do major Câmara
Cap 118 Traição do major Câmara

 

          Duas guarnições sob o comando de oficiais estavam, permanentemente, estacionadas, à entrada da minha rua.

Reuni meus filhos, aos quais comuniquei que de uma hora para outra, eu poderia ser preso, e que eles tivessem cuidado com a saúde da mãe deles, aos quais esclareci sobre a conversa que eu teria com o major Câmara, deixando-os tranqüilos de que aquele oficial era digno de confiança.

À hora da reunião na OAB, desloquei-me para lá. As guarnições da PM continuavam no mesmo local. Consegui ir por outro caminho que os oficiais não sabiam e fui para a reunião, que se prolongou até às 17 horas e 20 minutos.

  • Exatamente, às 17 horas e 30 minutos, encontrei-me com o major Câmara, no local acertado. E mal começamos a conversa, eis que vem se aproximando - de cabeça baixa como quem não queria e querendo - o Major Cavalcanti, chefe da segunda seção, que me foi logo dizendo grotescamente: O comandante mandou lhe buscar.
  • Mas, eu estou conversando com o major Câmara - respondi.
  • Não adianta, você vai de qualquer maneira - enfatizou o major.
  • Mas, o que foi que eu fiz? Eu matei? Eu roubei? O que foi que fiz, major? Diga!!... Diga, major!!...

Foi quando o Major Câmara interrompeu:

“Calma Júlio!!... Calma Júlio!!...”

Desconfiei que o Major Câmara, covardemente, teria comunicado ao comando que iria se encontrar comigo. Ele havia me traído e não era, em nada, diferente dos meus perversos algozes. Bem à minha frente estava estacionada uma viatura da segunda seção, com dois sargentos sentados no banco traseiro, a serviço dos tiranos prazeres do alto comando, e a porta do lado do passageiro aberta. Eu não quis mais conversa com os oficiais; fui direto à viatura e sentei-me no banco de trás entre os dois graduados.

O major Cavalcanti embarcou no veículo, mandando o seu motorista seguir para o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar. Já próximo, ele mandou estacionar o veículo e disse:

“Vou telefonar daquele orelhão para o coronel Altamiro”.

Retornou logo, ordenando ao motorista ir para o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças - CFAP, por determinação do subcomandante.

Preocupado com a saúde de minha esposa, solicitei ao major:

  • Major, minha esposa é doente cardíaca, sofre de pressão alta e taxas altas. Se a notícia de minha prisão chegar ao conhecimento dela pela televisão, ela pode sofrer um ataque e morrer. Eu gostaria de ela pode sofrer um ataque e morrer. Eu gostaria de passar lá em casa. O senhor pára a viatura distante, eu vou conversar com ela, e em seguida nós vamos para o CFAP.
  • Mas, era só o quê faltava!... Preso, ainda quer passar por sua casa!! Ne...ga...ti...vo!!... Vamos para o CFAP!

A resposta do major me deixou angustiado. Via-se, portanto, evidenciada quanta maldade existia no coração daqueles oficiais, os quais usavam o poder que lhe fora dado temporariamente só para fazer o mal. Fiquei amargurado, preso e temendo um acontecimento triste dentro de casa. 

Eles  estavam  tão certos de que eu seria preso, que o major Reis, comandante do CFAP, estava me aguardando. Ora! Com uma traição daquela!!... Chegamos ao  CFAP,  e  eles  haviam mandado ir para casa os alunos sargentos, cabos e soldados e cerca de 200 alunos soldados. Ao descer do veículo, fixei meu olhar na face do major Cavalcanti, ao qual disse:

“Por favor, não passe nem perto de minha residência, e tudo quanto vocês estão fazendo comigo, eu anularei na justiça”.

O Major Reis conduziu-me ao refeitório dos subtenentes e sargentos, onde estavam quatro sargentos jantando e aos quais disse:

“O subtenente Júlio vai jantar aqui e ficará no alojamento de vocês”.

Preocupado que poderia acontecer algo de grave com minha esposa, solicitei que o subtenente Amadeu, residente a poucos minutos do CFAP, fosse à minha residência, a fim de comunicar a minha família, mas apesar de sua presteza, a televisão já havia divulgado. E por sorte, na hora de notícia Maria Aparecida - minha esposa -  não estava assistindo.

O comandante do CFAP recebeu ordem do Comandante Geral da PM para colocar uma sentinela armada de revólver à porta do meu alojamento,  deixando-me incomunicável como se eu fosse um bandido perigoso. Mas, bandido é quem pratica ato às margens da lei. E isto eu não fiz.

Os sargentos não gostaram da sentinela colocada ali, e assim que o major Reis chegou, no dia seguinte, foram solicitar a sua retirada. Eles argumentaram de que os presos perigosos gozavam de liberdade dentro do presídio; muitos até saiam para a rua, e eu, sem ter praticado nenhum crime, estava incomunicável.

Os sargentos insistiram junto ao major Reis, que resolveu convocar os oficiais, mas, dentre os quais teve quem dissesse:

“Não só deve permanecer a sentinela no alojamento do subtenente Júlio, como também colocar sentinelas nas laterais”.

Cientes sobre a posição dos oficiais, os sargentos não desistiram e o major mandou retirar a sentinela, que passou a circular pelos corredores do estabelecimento militar.