RIBEIRO ROCHA JULIO 
Cap 73 - Meu algozes não me deram tréguas
Cap 73 - Meu algozes não me deram tréguas

 

             Sem terminar a licença médica para tratamento de saúde, fui transferido para a Companhia Independente de Polícia na cidade de Patu, e simultaneamente, nomeado subdelegado de polícia, com atribuições de Delegado da Cidade de Olho D’água do Borges, que ficava a 24 quilômetros daquela cidade.

O curioso nesta história, é que a Junta Médica da Polícia Militar foi desmoralizada e não fez nada em minha defesa, e ainda teve um médico que me disse:

“Se eu souber que foi você que pediu para ir para o interior, eu lhe dou uma cadeia. E na próxima vez que você vier aqui, não tem mais direito a licença, entendeu, sargento"!?.

O pior é que eu descobri, posteriormente, que o tal oficial médico fazia parte do grupo de oficiais que me perseguia. E tudo na junta fora combinado.

Fui para Olho D’Água do Borges. Lá fiz boas amizades. Após quatro meses, transferiram-me para a cidade de Martins. O povo da cidade não gostou da minha transferência.

Houve uma campanha pela minha permanência na cidade. Foi feito abaixo-assinado dirigido ao Secretário de Segurança Pública, coronel do Exército Ulisses Cavalcante, exigindo que fosse tornada sem efeito a minha saída. Movimentou-se a cidade toda, além da Câmara dos Vereadores e o Prefeito. Não demorou a chegar uma contra-ordem, determinando que eu continuasse  em  Olho  D’Água.  Completavam  8  meses  que me encontrava naquela cidade. Eu não vivia bem de saúde e precisava fazer um tratamento sério em Natal. No final de abril de 1965, fui à capital potiguar. Procurei falar com o Secretário de Segurança,  que me demitiu de Olho D’Água.

Ao deixar o gabinete do secretário, o seu chefe de gabinete, tenente Menezes, avisou-me de que já existia uma ordem para me colocar em outra cidade, mas, eu ficasse tranqüilo que ele não me colocaria.

Com a saúde bastante abalada, fui, na tarde daquele dia, numa sexta-feira, à residência do comandante geral da corporação, coronel do Exército Milton Freire, que me atendeu muito bem, a quem fiz uma explanação sobre o meu estado de saúde e solicitei a minha transferência de Patu para Natal e que ele não deixasse me nomear para nenhuma delegacia.

O coronel mandou que eu fosse à Secretaria de Segurança, e avisasse ao tenente Menezes que, de ordem dele, não me colocasse mais para o interior. Por fim, disse-me:

“Segunda-feira, cedo, apresente-se ao coronel Altino, meu subcomandante, e lhe informe que tem minha ordem para falar comigo, que eu vou lhe transferir de Patu para Natal”.

Sai tranqüilo da residência do comandante, acreditando piamente de que o meu problema estaria solucionado.

Cumprindo a determinação do comandante, na segunda-feira, à hora do expediente, procurei o coronel Altino que me apresentou ao coronel Milton. Ao entrar ao seu gabinete, também chegou o coronel Antônio(*), que me perseguia e era justamente o responsável pelo remanejamento dos policiais. O comandante perguntou ao seu coronel comandado:

  • Qual é a situação deste sargento, Antônio?
  • Este sargento saiu de Olho D’Água do Borges, mas está indo para Riacho da Cruz.
  • Onde é que fica Riacho da Cruz, coronel? - perguntei.
  • Fica perto da cidade de Martins - respondeu.

Doente e precisando cuidar de minha saúde, num tom de desespero, falei ao coronel Antônio:

  • Mas, coronel, eu estou doente! Não passo ir para o interior numa situação desta, mesmo porque o Secretário de Segurança me pediu um atestado médico e eu levei para comprovar o meu estado de saúde.
  • Qual foi o médico que você procurou? - perguntou o coronel Antônio.
  • Foi o doutor Moscoso, médico do IPE, com o qual eu venho me tratando há algum tempo.

O coronel, sem qualquer consideração, disse que o atestado médico não seria válido, pois só servia se fosse da Junta Médica da Polícia Militar. E ato contínuo, mandou que eu fosse me apresentar ao major Olegário, que era o ajudante geral, a fim de publicar no boletim do comando minha inspeção de saúde pela Junta Médica da Corporação. Apresentei-me ao major Olegário, ao qual transmiti a determinação do coronel. O oficial perguntou se eu havia requerido Junta Médica. Respondi que não.

“Então, volte e diga ao coronel que mande dizer o motivo da junta médica” - esclareceu.

Retornei ao gabinete do comandante. E lá continuava o coronel Antônio, ao qual informei sobre o que o major teria dito. O coronel Antônio pegou um pedaço de papel e escreveu:

“Junta Médica. Seja inspecionado pela Junta Médica desta Polícia Militar, hoje, às 14:00 horas, o 3º sargento Júlio Ribeiro da Rocha”.

Entreguei a ordem ao major, que a publicou no boletim daquele dia.

Às 14 horas, fui à Junta Médica. Diante do que o médico me dissera quando da minha ida para Olho D’Água, o que diabo eu iria fazer ali? Naquela Junta Médica desmoralizada. Comprometida com o esquema de perseguições contra mim. Por sorte, existia um médico novo - doutor Túlio Fernandes Filho -, que me internou numa enfermaria do hospital.

Fiquei internado 15 dias. Submeteram-me a uma infinidade de exames. Estava bem melhorado. O médico pegou minha ficha e colocou apto, não me dando um só dia de dispensa.

Eu estava, portanto, pronto para o trabalho. Vivendo tanta perseguição, eu sabia que o meu destino era mesmo ser jogado para o interior, justamente para onde eu não queria ir.