RIBEIRO ROCHA JULIO 
Cap 37 Primeira punição disciplinar
Cap 37 Primeira punição disciplinar

 

           Os sargentos que aderiram aos defensores fervorosos do retorno de Luciano ao comando da Polícia Militar, com tudo quanto ele tinha direito – banquetes,  caneta de ouro e as honrarias inerentes  ao cargo de comandante geral -, foram contaminados pela euforia do aluizismo, e esqueceram-se de que o novo comandante era caxias. Deveras, muito Caxias!

Sem escrúpulo, chegaram a transpor os limites dos pilares da disciplina e da hierarquia, estremecidos pela politicagem nojenta praticada dentro da corporação.

Ocorreu, naquele tempo, a primeira punição assinada com dita caneta de ouro. Adivinha contra quem!?... Contra o sargento Geraldo  - um dos doadores da dita caneta de ouro. E foi de 30 dias de prisão, recolhido ao xadrez. O qual já estava insatisfeito com Luciano e Aluizio.

A medida punitiva do comandante não agradou em nada aos subtenentes e sargentos, que tentaram reverter o ato do comando. Ele, porém, não cedeu. E a classe ficou de “Orelha em pé”. Não obstante, os audaciosos atos de indisciplina praticados por Geraldo,  não deixaram brecha à sua defesa.

Desde então, as punições foram acontecendo. Tudo fazia crer que muitos haviam construído o seu castelo em cima de dunas, ao invés de construí-lo sobre rochas. Todavia, a maioria, que se reservava, continuava desfrutando do prestígio junto ao coronel Luciano, a quem ele agradecia estar de volta ao comando da corporação.

Geraldo, realmente, foi a ovelha negra naquela história.

Na esfera executiva, os primeiros atos do Governador Aluízio Alves foram fulminantes para os servidores civis e militares. Ele tornou sem efeito um aumento de quatro mil cruzeiros que o ex-Governador Dinarte Mariz havia concedido ao funcionalismo. Naquela época, as coletorias  do interior do estado eram responsáveis pelo pagamento dos funcionários que serviam no interior. E o pagamento do primeiro mês de aumento já havia acontecido.

O governador determinou o retorno dos quatro mil cruzeiros aos cofres do estado e deu aos servidores estaduais, numa situação emergencial, um crédito de hum mil cruzeiros numa caderneta, cuja capa era verde para os policiais militares e marron claro para os civis.

Com o crédito, eles só compravam na cantina da Polícia Militar, que era instalada no interior do quartel do Comando Geral. E quem não o utilizasse, ficaria “chupando o dedo”.

Dia-e-noite, formavam-se intermináveis filas de funcionários e familiares, a fim de efetuarem suas compras na cantina da Polícia Militar. As filas davam volta em torno do quartel. Viam-se mães de família, mulheres gestantes e pessoas idosas, impacientes, enfrentando aquelas horríveis filas. Passadas de fome, muitas mulheres sofriam desmaios. Outras choravam desesperadas com a demora vendo seus filhos sofrendo com a fome que os castigava. Quantas donas de casa no desejo de saciar a fome dos seus filhos ultrapassavam o valor de suas compras, deixando-as nos limites dos minguados hum mil cruzeiros.