Cap 15 A festa de São Francisco
Cap 15 A festa de São Francisco

 

      Em 4 de outubro de 1952, estando bem equilibrado financeiramente, padrinho João Horácio, que era devoto de São Francisco, fez a tradicional festa de seu santo protetor, que há  três anos não festejava.

A festa tinha início com a parte religiosa. Um altar instalado num canto da sala, dois lampiões a gás a iluminavam. No altar cheio de velas estava a imagem de São Francisco, em gesso. Todos ajoelhados rezavam meia hora. E ofereciam suas rezas àquela imagem de gesso, que não ouvia, que não falava, que não andava, que não via. Nada sentia!...Nada fazia!... Nem se mexia!

A presença maciça das pessoas, que compareciam à festa, causava surpresa ao meu padrinho João, que jamais contara com tanta gente. A festa atraia gente da redondeza, dos municípios de Monte Alegre, Lagoa de Pedras, do povoado de Vera Cruz e outros.

Depois das rezas ao santo, seguiam-se as atrações como pastoril, bumba-meu-boi e cantorias. A atração principal era Chico Traíra - o melhor cantador de viola do Nordeste. Várias barracas ocupavam parte do terreiro, nas quais se vendiam de tudo: genebra, vinho de jurubeba e comidas regionais. Cachaça, nem pensar!...

Osório, para lá de melado, abraçou-se com Zeca - que também estava quente - e disse:

“Qui festa boa, Zeca! Tá boa pra diacho, homi!...”

Eu e Luiz de compadre Zeca estávamos conversando um pouco distante da cantoria, quando Zé de Antônio da farinha, que tinha  inveja daquela minha amizade com Luiz de compadre Zeca, deu-me um murro no estômago. Eu, que não desacatava ninguém, mas não levava desaforo, revidei entrando em luta corporal com ele que levou a pior. O pai do menino procurou meu padrinho.

“Seu João, o sinhô dê um jeito no seu afilhado que ele bateu no meu filho!"

Fiquei por trás das barracas, escutando a queixa. No meio da festa mesma, meu padrinho gritou:

“Ô, Jú...li...o!...”

Meu padrinho detestava mentira e sabia que eu nunca mentira para ele. Sai bem ligeiro. Pertinho dele, quase não abrindo a boca, com o coração batendo fortemente “tuc...tuc...tuc...”, gritei:

  • Inhô, padim!!!...
  • Júlio!... Conte a verdade, meu filho!! Você começou a briga com esse menino?
  • Não sinhô, padim! Foi ele!...
  • Eu não posso fazer nada; Júlio não

 - concluiu padrinho João.