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Cap 18 A verdade sobre meus pais
Cap 18 A verdade sobre meus pais

Compadre Zeca vem chegando. Chamou padrinho João para o alpendre da casa. Conversavam, não sabendo o quê, fui me esconder por trás da porta da frente, a fim de escutar a conversa dos dois.

- É,  compadre João!... – dizia Zeca - o menino é esperto mesmo. O sinhô acredita que a maioria dos trabalhadores não consegue acompanhar ele no eito!? E ele nem se cansa.

- Compadre, eu tenho um homem dentro de casa. Ele está me dando o prazer que André não me deu.

- Compadre João, o sinhô nunca teve notícias dos pais dele não?

- Quase toda sexta-feira eu me avistava com compadre Antônio na feira de Campestre. Mas, eu deixei de ir àquela feira!!...

- Quem é esse Antônio, compadre?

- É o pai de Júlio.

- Ele perguntava pelo filho?

- Perguntava nada, compadre!...

- Mas, compadre João, ele sabia que o filho estava com o sinhô.

- Sabia, sim.

- Que diacho de pai é esse, meu compadre!!? E a mãe dele, o sinhô tem visto?

- Não. Só tive contato com ela no dia do batizado.

- Compadre, por que foi que abandonaram o filho?

- Compadre, é uma história complicada, mas eu vou lhe contar. Compadre Antônio era casado com Isabel. Pelo que consta, eles brigavam direto. Moravam em Serra de São Bento, onde reside a família de ambos. Eles tinham seis filhos, sendo Júlio o mais novo. As brigas não paravam, até que deu em separação. Eles deram os filhos aos parentes. Júlio tinha quatro anos. Comadre Isabel ficou com Júlio e foi para Natal, mas voltou à Serra de São Bento. O menino não era bem tratado. A mãe não tinha condições para criá-lo. Foi quando apareceu Francisco, irmão de Isabel, que levou o Júlio para a companhia dele. Chegou ao meu conhecimento que o menino sofria maltratos. E eu mandei buscá-lo.

Escutei, atentamente, aquela história. Revoltado com o que ouvira, sai correndo e fui chorar dentro da cocheira dos cavalos, de onde escutei minha madrinha chamando-me:

“Júlio!... Venha cá...”

De onde eu estava, acelerei os passos e gritei pertinho dela:

- Pronto, madinha!!

- Onde você estava, menino, que eu te chamei e não me respondeu?

- Eu estava na cocheira, madinha. 

- Na cocheira, que nada menino!!...

Minha madrinha mal fechou a boca, aplicou-me diversos cocorotes (pancadas com os nós dos dedos) na cabeça. Corri chorando, quando meu padrinho apareceu:

- Ô Gui...lher...mi...na!? O que foi que ele fez de errado? Hein, Guilhermina!?

- Você nunca me dar razão - defendeu-se.

- Não é bem assim, Guilhermina!... Júlio já está um rapaz.

Compadre Zeca, que continuava no alpendre, levantou-se e caminhou à sala de jantar, na qual se encontrava o casal.

- Compadre, eu já vou buscar o capim.

- Compadre Zeca, leve o Júlio com você.

- Sim, compadre! Júlio, vamos!... – emendou.

Botamos cangalhas e cambitos em três jumentos e fomos ao capinzal da vazante. Zeca usava uma serra para o capim verde, e eu um facão para o capim que estava quase seco. Notei que Zeca se preocupava com alguma coisa.

Você tem o quê, Zeca? - perguntei.

Nada! Não é nada!...

Carregamos os animais. Logo, já estávamos de volta. Fomos cortar miudinho todo o capim, colocando-o na cocheira, que seria a ração da noite das vacas leiteiras.

Padrinho João tocou o búzio chamando os homens que trabalhavam próximo à casa da fazenda, pois estava na hora do almoço.

Soltei o facão e fui correndo deixar a comida dos trabalhadores nos roçados distantes, onde lá também trabalhavam Luiz e Antônio de compadre Zeca. Não me demorei, pois eu não me demorava em lugar nenhum sem está fazendo alguma coisa.

Compadre Zeca continuava cortando o capim. Ajudei-o na conclusão do trabalho. Padrinho João chegara da casa de farinha junto com uns homens estranhos naquela localidade. Eram os mecânicos que acabavam de montar um motor novo para moer mandioca, substituindo a força muscular dos homens.

Ele estava fazendo uma reforma geral na casa de farinha, aumentando o forno com capacidade para dois forneiros e mais uma prensa.

Pela posição do sol, pendia das 4 da tarde. Eu e Zeca nos preparamos e fomos buscar o gado. Como eu era bom na montada, que causava inveja ao próprio Zeca, coloquei a sela no cavalo pintado, que me conhecia de longe e me cheirava quando eu o alisava. Pintado cismava até do vento. Nem padrinho João se atrevia a montar nele. Nem Zeca! Comigo, porém, era um cordeiro. Puxei a rédea do animal e ele saiu esquipando, que, aliás, igual existiam poucos na redondeza. Compadre Zeca seguia-me  galopando no seu cavalo de cavalgada cotidiana. Logo, deixou-me na poeira, tomando-me a dianteira. Folguei e balancei a rédea do meu cavalo, o qual disparou e velozmente passou à frente do outro cavalo, deixando-o bem na retaguarda.

Com o sol já se preparando para deixar o dia, penetramos na mata fechada. Pintado se agachava  livrando-se dos galhos baixos. E eu me livrava  também. Finalmente  saímos  num  grande descampado, onde o gado estava pastando.

Zeca deu um forte aboio, que igual a ele não existia naquela região. Arrepiei-me todo! Era avizando que estava na hora do rebanho se recolher ao seu curral para o repouso noturno.  Os cavalos ficaram de orelhas em pé. As vacas levantaram as cabeças dando a entender aquela mensagem,  e o touro -  o Boi-Zebú - levantou a sua cabeça bem alta demonstrando que ele seria o líder do rebanho. E o era. Zeca riscou o seu cavalo. Esquiou-se na sela e correu a vista no gado. Viu que estava tudo certo. Esporou o  cavalo, que suspendeu as duas patas dianteiras. Deu-lhe rédea. Aboiando, circundou o gado, tangendo-o com destino ao curral da fazenda Pitombeira.