RIBEIRO ROCHA JULIO 
Cap 2 Minha primeira fuga
Cap 2 Minha primeira fuga

 

        Amanheceu o dia. Quase não dormi. Levantei-me mais cedo do que nos outros dias. Dona Zefa, como dona de casa, enfiava-se nos seus afazeres domésticos. Era uma sexta-feira. Tomei café. E no meu peito pulsava um forte desejo de encontrar os meus pais. Tal vida miserável não me agradava. Fazia-me sofrer muito.

Aquela força dentro de mim a fim de procurar meus pais, não se cansava. Agora, com mais veemência,  ordenava-me procurá-los.  

Decidir agir. Peguei um caminho estreitinho que saiu numa estrada de barro, que anos depois tomei conhecimento ir à cidade de São José de Campestre, e era justamente no  dia de feira. Fiquei às margens da estrada, e não tardou chegarem outras pessoas, entre elas um cidadão me perguntou:

  • Para onde você vai, menino?
  • Eu vou procurar minha mãe...
  • Ah! Eu conheço sua mãe e seu pai.
  • Você quer mesmo sua mãe e seu pai?
  • ..
  • Seu pai está na feira de Campestre. Eu vou lhe entregar a ele.

O homem continuou dizendo que iria me entregar a meu pai,  segurou-me pela mão e alisou meus cabelos.

Vem chegando o carro dos feirantes. Era um caminhão grande cheio de bancadas. Parou, e nós subimos. O estranho sentou-se ao meu lado.

O carro velho fazia um barulho terrível e parava durante todo o percurso para apanhar os feirantes que o esperavam ao longo da estrada.

Finalmente, chegamos à cidade de Campestre. O homem, desta vez  me segurando pelo braço,  desceu do veículo. E não me largava. Ganhamos à feira. Ele me deu lanche, comprou um chapéu de palha de carnaúba, colocando-o na minha cabeça. Comprou um par de alpargatas de couro cru, colocou-as nos meus pés. De velho, só a roupa que me vestia.

 Sem soltar o meu braço, dizia que estava procurando o meu pai, mas nada de encontrá-lo!

A tarde chegou e nada!...

O desconhecido sem soltar o meu braço, levou-me a um carro, no qual embarcamos. Querendo chorar, perguntei:

  • Cadê meu pai?
  • Não chore, menino - disse ele - que eu vou lhe deixar na casa de seu pai.

Lá se vai bem lento o veículo numa estrada empoeirada, pára aqui, pára acolá. Já era escuro quando o veículo parou mais uma vez. O homem desceu comigo, sem largar o meu braço. Seguiu numa vereda. E eu não sabia para onde estávamos indo. Ele era vizinho de tio Francisco. Devido a minha idade, eu não o conhecia. Só entendi que lugar era aquele quando vi tio Francisco. Comecei a chorar com medo de ser castigado com algumas lapadas de cordas. Eu gritava não quero ficar!!... Não quero!!...

Não! Não! Não chore, que eu vou pedir a seu tio para não bater em você - adiantou o estranho.

Realmente pediu, acrescentando:

  • Seu Francisco, este menino ia fugindo a procura do pai dele. Eu resolvi trazer ele de volta, mas o senhor vai me prometer que não baterá nele. O senhor me promete?
  • Prometo - respondeu friamente.
  • Então, está aí o menino! Não bata nele! Boa noite, seu Francisco.
  • Boa noite.

Tio Francisco olhava-me de cima-a-baixo com aquela monstruosa cara, e só deu tempo para o seu vizinho se afastar. Ele  segurou-me pelo braço,  apanhou   uma   peça   de  corda de agave. Deu-me uma brutal surra. Foi cruel!!!...