RIBEIRO ROCHA JULIO 
Cap 5 Os primeiros anos
Cap 5 Os primeiros anos

 

       Durante dois anos, minha vida foi de uma boa convivência com os meninos. Mas, eu já estava entendendo todo o dia-a-dia naquela fazenda. Meu padrinho me botou para trabalhar. E fui realizando tarefas de pouco empenho físico.

Desta feita, Comecei dando recados, e cumprindo pequenas  tarefas que ele me dava. Passava  o dia inteiro, e às vezes entrava pela noite. E eu não fazia nem cara feia. Tudo com muito zelo. Aquilo era uma dávida de Deus!

 Meu padrinho não parava de me dar ordem:

“Júlio, vá chamar compadre Zeca. Vá amarrar aquele jumento ali. Faça isso. Faça aquilo”.

E eu saia assobiando ou cantando:

“Minha burrinha come milho, come paralha de arroz, o mal desta burrinha é que não pode com nós dois.”

Fui crescendo e adquirindo responsabilidade. E tudo saía perfeito. E eu cativava meu padrinmho, que não perdia oportunidade para me elogiar, tendo-me, inclusive, como o seu preferido em presença de André; o qual – André -, toda vez que tomava cachaça, dava algumas dores de cabeça ao velho mangalheiro.

Vendo minha esperteza, ele foi mudando as minhas tarefas diárias. Ensinou-me a montar nos animais. Com maior responsabilidade, perdi o contato diuturno com os meninos de Zezinho Horácio.

Eu estava fazendo quase todos os trabalhos de gente grande. E dava conta. Entre as tarefas,  fiquei  responsável para ir deixar e buscar o gado no pasto; ir deixar o lanche dos trabalhadores no roçado; transportar nos jumentos a ração dos animais; buscar água no açude, utilizando barris nos lombos dos jumentos. Aonde eu chegava, os adultos me ajudavam a colocar a carga.

Minha madrinha me considerava, meramente, como mais um trabalhador e não dedicava os mesmos cuidados que me tinha padrinho João. Ele não escondia a satisfação que sentia pelo trabalho que abracei sem nenhuma rejeição. Fazendo-o com amor. Sem tristeza no meu coração, pois eu já estava me esquecendo da pouquíssima convivência na desarmoniosa casa de meus pais.

Passei dos pequenos aos pesados trabalhos, em igualdade com os trabalhadores, inclusive, no eito. Sem, contudo, atrasar nenhuma tarefa. Se fosse a pé e o tempo curto, eu saia correndo; se montado, o animal seguia galopeando. E era gostoso!

No eito ou noutras atividades, todos se admiravam da minha disposição.

Hoje eu fico imaginando de onde vinha tanta energia.

A resposta à minha pergunta não vem de outro, senão de Deus.

Meu padrinho - apesar da idade - gozava de perfeita saúde e muita energia para o trabalho. Ele não ficava parado um minuto.

Mesmo casado e morando com o sogro em São José de Campestre, André ia toda a semana à residência do pai. Desde a minha chegada que ele mantinha uma rixa comigo. E  vivia sempre  procurando  uma desculpa para me bater, o qual tinha ciúmes do tratamento que o seu pai me dava. Certo dia, ele bebeu descontroladamente, e brigou com a sogra. Depois da briga o mesmo e sua mulher foram morar conosco.

Isaura, sua esposa, era uma ótima pessoa, mas ele continuava maltratando-a e tomando cachaça como se fosse uma obrigação diária. Não ajudava nos trabalhos do pai. Quando padrinho João não estava em casa, ele brigava comigo ou com Isaura. E cada dia se tornava mais violento, partindo logo para espancamento, deixando-nos cheios de hematomas. Nossas vidas viraram um verdadeiro inferno. Isaura não o suportou e foi embora para a casa de seus pais, deixando-o  definitivamente. Separado, ele foi morar com Rosemiro na Capital do Recife.