RIBEIRO ROCHA JULIO 
Cap 22 Ano de muita fartura
Cap 22 Ano de muita fartura

 

       Era 1954. As experiências dos idosos indicavam que o inverno seria bom. A terceira semana do mês de março começou com chuva. Foi logo depois do meio-dia e entrou pela noite. Os trovãos davam cada estampido que parecia até que o mundo ia desabar. Os relâmpagos cortando as nuvens deixavam a noite clara repentinamente.

Chegou o novo dia e continuava chovendo. Os moradores da fazenda pulavam e cantavam de alegria com a chegada da chuva. E os da redondeza também contavam.  Zeca, enrolado numa capa, tirava o leite.

Luiz de compadre Zeca e Chico de Joana, este também morador da fazenda Pitombeira, chegaram correndo debaixo de um forte temporal, os quais todas as manhãs ajudavam o Zeca no curral, e foram até ao alpendre da casa grande. Chico gritou para meu padrinho:

  • Seu João!... Seu João!...
  • O que é homem!? Por que está tão aflito?
  • É urgente, seu João!...
  • É urgente, o quê? Diga, homem.
  • É o açude que está estoura, não estoura. A água vai lavar a parede e o sangradouro não dar vencimento.

Meu padrinho mandou chamar, urgente, os homens da redondeza aos quais  distribuiu  pás,  picaretas e enxadas. Foram ao açude, que, de fato, estava ameaçando estourar. Deram início ao trabalho de alargamento do sangradouro. Todo mundo entrou na luta. Homens, mulheres e meninos. E chovia sem parar. Corria perigo mesmo! Chico de dona Joana, gritava:

“Depressa, pessoal! A água está lava não lava. Tem menos de meio palmo para lavar o paredão”.

Debaixo daquela chuva, o pessoal trabalhava com muita disposição. Todos os moradores da vizinhança ao tomarem conhecimento sobre o perigo do açude, correram para lá conduzindo ferramentas, e entraram na luta.

O temporal passara depois do meio dia. Apenas chuviscando. Os trabalhos de alargamento estavam concluídos.

A noite, toda viçosa, foi se aproximando e ocupou o acento do dia, o qual se despidiu com chuva, homenageando-a com relâmpagos e trovoadas.

Na sala da casa grande, padrinho João conversava com sua comadre Sulina, enquanto compadre Zeca terminava os trabalhos agasalhando as vacas e os bezerros no curral.

A cisterna enchera na segunda noite, a qual me daria tranqüilidade, enquanto tinha água, evitando aquele trabalho penoso nas madrugadas.

Apois três dias chovendo, seguiu-se uma semana de chuva fina e intermitente; logo no primeiro dia de estiagem, padrinho João convocou homens, mulheres e adolescentes para iniciarem a plantão de feijão e milho. Os homens abriam as covas, enquanto os demais - mulheres e adolescentes - plantavam as sementes.

Foram cinco dias só para semear. Na semana seguinte, a chuva tomou corpo com branda intensidade e não chegou a atrapalhar a germinação das sementes.

Na segunda semana, noutro terreno, com os mesmos trabalhadores, padrinho João iniciou a plantação de maniva de mandioca e mudas de inhame, além de outros cultivos de pequena escala.

A lavoura foi crescendo toda igual.

Padrinho João dobrara o número de trabalhadores no eito; foi preciso chamar gente de fora, pois tanto a lavoura quanto o mato cresciam com rapidez, e sem parar de chover o mato arrancado não morria.

Com noventa dias tinha feijão e milho verde para comer.

Era só alegria!

Como Deus é maravilhoso!