Cap 7 Minha segunda fuga
Cap 7 Minha segunda fuga

 

      Na casa de padrinho João o clima não andava bom para mim.  André,  que  chegara do Recife onde havia conseguido um emprego, mas com data marcada  para retornar, dera-me uma surra que causava dó. Minha madrinha vivia insatisfeita e culpava-me pela saída de André para longe. Ela me maltratava quase que diariamente. Minha vida foi transformada, verdadeiramente, num inferno.

Aquela triste situação, que eu estava enfrentando, fez-me pensar em procurar novo rumo na vida.

Naquele tempo, o Presidente da República, atendendo ao clamor do povo nordestino, mandou executar várias obras contra a seca através da construção de açudes nos estados castigados pela seca.

Uma das obras em construção era o gigantesco açude da Guarita, que ficava a  poucos quilômetros da fazenda  Uirapuru. Aquela obra foi a salvação do povo, que estava morrendo de fome. Surgiram, então, os donos de comboios - os tropeiros -, que faziam o carregamento do barro para a obra, no lugar de caminhões ou caçambas que à época não existiam.

Sabedor da construção do açude, que mal tinha começado, e recordando-me da maneira como me tratavam na casa do meu tio, peguei um saco velho, no qual coloquei rede, lençol e roupa. Deixei a casa do meu padrinho. Sai com destino ao açude, a fim de conseguir trabalho e dar início à nova vida. Sozinho. Sem pais, parentes e, padrinhos.

Sem conhecer o itinerário certo, cheguei a um lugar chamado Riacho, que depois mudou para Tangará. Lá,  fiz amizade com um  tropeiro dono de um comboio que ia se alistar na obra do dito açude, o qual me levou para trabalhar com ele. Chamava-se Sebastião - ou chamavam-no de Bastião. E foi com minha cara. Durante a viagem me fez várias perguntas, mas nada que me deixasse embaraçado.

Antes do anoitecer, chegamos à construção do açude. Eu nunca tinha visto tanta gente! Era um grande formigueiro humano, cheio de homens, mulheres e crianças, que circundavam quilômetros, juntos com os animais dos comboios, provocando nuvens horrorosas de poeira.

Chegavam trabalhadores braçais e tropeiros de longe. Existia serviço para quem chegava e queria trabalhar. O pagamento da mão-de-obra era feito com o fornecimento de feijão branco,  rapadura  e  carne  de  charque ou dinheiro. Diariamente,  as pessoas faziam filas intermináveis  ao redor do  barracão de alistamento.

Todo o carregamento do barro se fazia nos comboios  de jumentos e burros mulos. O barracão fornecia milho e farelo para os animais dos comboios.

Numa barraca imensa feita de lona, chamada de barracão que se parecia mais com um circo, ficava um grupo de pessoas letradas, que era responsável pelo alistamento e distribuição dos alimentos para os trabalhadores, além da  ração para os animais.

Bastião alistou-se comigo e seu ajudante Pedro. Recebeu ração à vontade para os animais, que estavam famintos. Colocou milho nos seus bornais. E os alimentou até matarem a fome.

Com lonas, que trazia consigo, ele, com a nossa ajuda, também armou a sua barraca. Foi rápido. Fomos jantar no barracão.  Feijão, rapadura, carne de charque e farinha, eis a refeição dos cossacos(*) e dos tropeiros.

Dormimos dentro da barraca de Bastião. Não era noite de lua, mas os lampiões que circulavam o barracão e os incontáveis candeeiros das barracas, deixavam-na clara que parecia a luz do dia.

No dia seguinte, todos de pé, bem cedinho. Um dos funcionários do barracão chamou um certo cidadão de cor morena, ao qual nos apresentou, dizendo:

 “Este rapaz  se chama Alfredo. Ele vai tomar conta de vocês, como cabo-de-turma. Façam o que ele mandar.

Alfredo reuniu rapidamente o seu grupo de cinqüenta pessoas. Todas de pás e picaretas nas mãos,  com ele seguindo à frente, andamos alguns  minutos  e paramos  junto  a um grande monte de barro. Os cossacos  com as pás em punho enchiam as caçambas dos animais. Só no grupo de Alfredo existiam três comboios de 20.

O tropeiro Bastião foi quem levou o primeiro carregamento daquele dia, contando com o meu auxilio e de seu ajudante.

Pertinho daquela turma, ao ar livre, duas mulheres em grandes tachos, cozinhavam à lenha a comida dos cossacos.

        Alfredo - responsável pelas turmas 105 a 106 - retirou do bolso do cós da calça um relógio grande e liso, que se parecia com uma bússola, que era chamado relógio de algibeira. Olhou a hora e gritou:

“Olha aí cambada da turma 105, suspendam o trabalho e vão almoçar. É só meia hora. Rápido!"

Deu meia hora e retornou a primeira turma. Alfredo aos berros, determinou:

“Vá a turma 106. Rápido!"

Nós almoçamos com esta turma. A comida, bem cheirosa, era servida em prato de barro. Os tachos ferviam com o caldo borbulhando. Chegou a minha vez. Dona Nem, que era a cozinheira, com uma concha feita de quenga de coco, retirava a  comida do tacho e colocava nos pratos. Feijão branco, carne de charque, farinha de mandioca e rapadura. Pronto! Eis, a refeição. Mas, que comida gostosa!? Dona  Nem  sabia  temperar ao gosto da região. Ela, de vez enquanto pegava a concha tamanho família e ia aos tachos; retirava um pouquinho do seu caldo, levava-o à boca para sentir o gosto e o resto despejava dentro do tacho. E assim ela ia temperando. E todo mundo ai comendo e gostando!

Almoçamos. Dez minutos de descanso ali mesmo ao sol quente de pelar. De volta ao trabalho. Ninguém parava um instante. A ordem era desligar quem embromasse. Mas, quem se atreveria? Todos precisavam do trabalho.

Às 17 horas e 30 minutos, Alfredo mandou o pessoal encerrar o trabalho daquele dia. Fomos jantar. Carne de charque assada na brasa da aroeira, farinha de mandioca e café, fora este o jantar.

Os cossacos não tinham lugar para se abrigar e naquele descampado dormiam mesmo no chão, tomados pela fadiga. Nem se banhavam, pois a água era escassa; só dava para beber  e cozinhar; assim mesmo era salobra.

No dia seguinte, os cossacos foram acordados com os gritos do cabo-de-turma Alfredo, que dizia:

“A barra já quebrou, cambada! É sinal de novo dia. Levantem-se! Vamos tomar café".

O tropeiro Bastião, que acordara há tempo, chamou-nos para ajudá-lo a colocar farelo para a sua tropa de burros, a qual também pegava três refeições: pela manhã, ao meio-dia e à noite.

O vento forte trazendo ainda a frieza da madrugada  zunia aos nossos ouvidos. Chegou a hora da refeição matinal. Quão cheiroso era o café de dona Nem. Tudo pronto. Não precisava dar ordem para os cossacos pegarem o café, pois às 7 horas era servida a refeição matinal. Logo, formou-se uma grande fila.  A  alimentação  era fraca: brote seco e café. Só! Os que iam terminando, corriam ao  barracão, em busca do seu material de trabalho que lá o guardara por determinação dos cabos de turmas.

Com a lista de suas turmas nas mãos, Alfredo iniciou  a chamada do pessoal:

  • Turma 105:
  • Número um!...
  • Pronto!!
  • Número dois!...
  • Pronto!!

E assim continuava, até que chegou ao último da turma número 106. Não faltou ninguém.  Este foi o nosso segundo dia e não houve mudança para os demais.